Aquecimento global: Concorda com um plano calendarizado de reduo das emisses de gases de estufa?

Votação: Fechada
  • thumb-membro

    Pedro Miranda

    Universidade de Lisboa, Instituto Dom Luiz Centro de Geofsica
  • thumb-membro

    Jos Delgado Domingos

    Instituto Superior Tcnico
7 Fevereiro 2010 a 20 Fevereiro 2010 em Ambiente

evolução da tendência de voto

  • 0% 100%
  • 43% 57%
  • 50% 50%
  • 50% 50%
  • 44% 56%
  • 45% 55%
  • 45% 55%
  • 45% 55%
  • 45% 55%
  • 45% 55%
  • 55% 45%
  • 58% 42%
  • 50% 50%
  • 54% 46%
  • 01
  • 02
  • 03
  • 04
  • 05
  • 06
  • 07
  • 08
  • 09
  • 10
  • 11
  • 12
  • 13
  • 14

Introdução

O debate sobre o aquecimento global não acabou. Depois da cimeira de Copenhaga uma nova cimeira realizar-se-á em Dezembro, na Cidade do México e, no próximo mês de Junho, os ministros do ambiente reunir-se-ão em Bona.

O Contraditório reconhece a importância do tema do aquecimento global, mas defende que o consenso é próprio da política, não da ciência. Estes são os motivos que levam o Contraditório a lançar o debate sobre se existem razões científicas sólidas para aprovar um plano calendarizado de redução das emissões de gases de estufa.

O Contraditório convidou Pedro Miranda, Universidade de Lisboa, Instituto Dom Luiz – Centro de Geofísica, para defender o “SIM” e José Delgado Domingos, Instituto Superior Técnico, para representar o “NÃO”.

  • Sim 54%
  • Não 46%

fases

Esta votação terminou.
Deixe-nos o seu comentário

Moderador

Moderador

A temperatura média global não é constante, logo, umas vezes aumenta, outras diminui. Os dados publicados mostram que a temperatura média global aumentou cerca de 0.8ºC nos últimos 100 anos e que se manteve sensivelmente constante na última década.

Será que podemos afirmar que estamos perante um aquecimento devido a causas antropogénicas, ou, estaremos apenas a sofrer as consequências do fim da Pequena Idade do Gelo, que ocorreu entre os séculos XV e XIX? E qual é o efeito dos gases de estufa atribuídos a causas humanas (CO2 e outros) em comparação com o efeito que têm os gases de estufa existentes na atmosfera da Terra (vapor de água e nuvens)? Será que podemos estabelecer uma relação entre o aquecimento observado e o aumento da emissão de gases de estufa devido a causas antropogénicas?

Deve a ciência invocar a sua autoridade para defender a ideia de consenso e apresentá-la como justificação para evitar o debate científico? E os modelos científicos existentes produzem resultados suficientemente robustos que justifiquem as propostas em discussão e que condicionam decisivamente os próximos 40 anos? Ou será que o princípio da precaução é suficiente para justificar a aprovação de um plano calendarizado de redução de emissão de gases de estufa?

Estas são algumas das questões a que os nossos convidados respondem nos argumentos iniciais. Esperamos ver esclarecidas na próxima fase do debate as perguntas que ficaram por responder.

Pedro Miranda, professor na Universidade de Lisboa, Instituto Dom Luiz – Centro de Geofísica, defende que todos os modelos que são capazes de reproduzir o clima recente prevêem uma intensificação futura do aquecimento global e que só é possível reproduzir o clima recente com a inclusão da variação observada do CO2. O risco de não se fazer nada é enorme, especialmente se considerarmos os efeitos a longo prazo de um degelo com subida significativa do nível do mar e o facto de a ligação CO2-Temperatura estar solidamente suportada por observações e por modelos teóricos.

José Delgado Domingos, professor do Instituto Superior Técnico, considera que a antevisão da evolução futura do clima se baseia em resultados que carecem de fundamentação científica porque dependem criticamente de inúmeros parâmetros subjectivos. Estes resultados são depois utilizados para legitimar cortes drásticos e calendarizados nas emissões de CO2.

A divergência de opiniões é evidente. Aguardamos com expectativa o contraditório.

Argumentos iniciais

Sim thumb-membro

Pedro Miranda

Universidade de Lisboa, Instituto Dom Luiz Centro de Geofsica

Não thumb-membro

Jos Delgado Domingos

Instituto Superior Tcnico

A ligação CO2-Clima

Desde que Tyndall demonstrou, por volta de 1860, que o CO2 e o vapor de água são capazes de absorver radiação infravermelha, ficou definitivamente estabelecida a importância destes gases no equilíbrio térmico do planeta. Apesar de o CO2 ser muito menos abundante que o vapor de água (0.04% de CO2 contra até 1% de vapor de água) e de o vapor de água ser um gás de estufa mais eficiente, existem boas razões para lhe atribuir um papel central na variabilidade climática a longo prazo. Estas razões são de dois tipos: observacionais e teóricas.

A Figura 1 transmite uma mensagem fortíssima sobre a ligação natural CO2-Temperatura. A figura apresenta uma estimativa da evolução da concentração atmosférica de CO2 e da anomalia temperatura média global (referida ao clima 1951-1980), baseadas na análise de bolhas de ar aprisionadas no gelo depositado na Antárctica nos últimos 400 000 anos. A Figura 1 diz-nos duas coisas muito importantes: (1) nesta escala de tempo existe uma forte correlação entre CO2 e temperatura média; (2) na história recente da Terra a concentração de CO2 oscilou entre cerca de 200 ppm (partes por milhão), nos períodos glaciares, e 300 ppm, nos interglaciares.

Figura 1 – Concentração de CO2 (ppm, azul) e anomalia de temperatura (vermelho, estimado pela razão isotópica 18O/16O) medidas em bolhas de ar em Vostok (Antárctica)

A correlação entre duas variáveis pode ser fortuita e não garante uma relação de causa-efeito. Para estabelecer essa relação precisamos de argumentos teóricos sólidos, capazes de explicar as observações e capazes de estabelecer previsões verificáveis.

O papel singular que o CO2 parece desempenhar no equilíbrio climático da Terra deve-se a vários factores:

(1) Existem uma fonte permanente de CO2 nas emissões vulcânicas e abundantes reservatórios na água do mar (dissolvido), na biosfera e nas rochas (calcários, mas também combustíveis fósseis). O CO2 dos reservatórios não é facilmente mobilizável por meios naturais.

(2) A atmosfera está muito longe da saturação em CO2. Isso quer dizer que a sua concentração pode variar quase sem limite e o CO2 pode existir em concentrações elevadas mesmo na alta atmosfera, onde as temperaturas são muito mais baixas que à superfície (traduzindo-se num elevado impacto sobre o balanço radiativo).

(3) O CO2 tem um tempo de residência atmosférico superior a 100 anos, o que implica que se encontra bem misturado horizontal e verticalmente.

Evolução recente do CO2 e da temperatura média global

A Figura 2 mostra a evolução da concentração de CO2 medida no Hawaii em 1958-2009 e da temperatura média global, calculada a partir de observações em 1880-2009. O CO2 está em subida contínua há 50 anos, atingindo actualmente valores acima de 385 ppm, 35% acima do seu valor em meados do século XIX (estimado em 280ppm), 30% acima do máximo nos últimos 400 000 anos.

Figura 2 – Temperatura média global (dados NASA/GISS) e concentração de CO2 (ppm) em Mauna Loa, Hawaii (dados NOAA)

O CO2 atmosférico extra resulta essencialmente de dois processos humanos: a queima de combustíveis fósseis e a desflorestação. Uma contabilidade global das emissões mostra que cerca de metade do CO2 emitido tem ficado na atmosfera, tendo a maior parte do restante sido dissolvida no oceano.

É claro que a evolução recente da temperatura não correlaciona tão bem com a concentração de CO2 como mostrado na Figura 1. Isso não é surpreendente, visto que a Figura 1 sobressaem variações na escala dos milhares de ano, sendo menores as correlações associadas a oscilações rápidas. Quando o sistema oscila rapidamente, isso quer dizer que está fora do equilíbrio e, nessa condição, não são de esperar as mesmas relações que caracterizam o equilíbrio.

A questão chave: previsão verificável

A teoria do controlo do clima global pelo CO2 tem mais de 100 anos: foi proposta por Arrhenius em 1896. Arrhenius previu um aquecimento de 6ºC em resultado de uma duplicação do CO2, que nessa data lhe parecia vir a ocorrer num futuro longínquo. Ao longo do século XX, foram desenvolvidos modelos progressivamente mais completos, incorporando novos processos de realimentação climática (feedbacks) e uma representação cada vez mais realista da Física do sistema. Só na década de 1990 estes modelos se tornaram suficientemente credíveis. A Figura 3 mostra um exemplo de um conjunto de simulações em que se verifica um comportamento da temperatura média muito semelhante ao observado, com aquecimento entre 1900 e 1940, seguido de quase estabilização entre 1940 e 1970 e aquecimento mais rápido nas décadas finais.

Figura 3 – Temperatura média global no século XX (Boer et al 2000). A curva Parker/Jones representa as observações. A curva Control (verde) representa uma simulação sem aumento da concentração de CO2, as outras curvas são resultado de diferentes modelos

Os modelos climáticos são inerentemente complexos e certamente sujeitos a críticas. Ninguém afirma que eles sejam perfeitos. No entanto, todos os modelos que são capazes de reproduzir o clima recente prevêem uma intensificação futura do aquecimento global. Mais importante, só é possível reproduzir o clima recente com a inclusão da variação observada do CO2.

Porquê reduzir emissões

Tomamos constantemente decisões com base em previsões que não são absolutamente seguras. Tentamos assegurar-nos que elas são plausíveis e, em cada caso, fazemos uma análise de custos e benefícios dessas decisões (ou de não fazer nada…). No caso da mudança climática: (1) os riscos inerentes são enormes, especialmente se considerarmos os efeitos a longo prazo de um degelo com subida significativa do nível do mar; (2) a ligação CO2-Temperatura está solidamente suportada por observações e por modelos teóricos.

Existem (e existirão nos tempos mais próximos) dúvidas sobre a cadência da evolução climática futura. Existirão melhores modelos suportados por melhores dados. Como a maior parte das decisões a tomar se prolongam por décadas, haverá capacidade de ir adaptando essas decisões.

Finalmente, é importante recordar que a maior parte das decisões propostas seriam necessárias mesmo sem mudança climática. Acabar com a dependência de combustíveis fósseis, aumentar a eficiência energética, investir em novas tecnologias energéticas, vão tornar Portugal e a Europa mais competitivos e até podem tornar o mundo mais seguro.

Os que defendem a necessidade de medidas urgentes e cortes drásticos nas emissões de CO2eq (e.g., a UE a ONU e a maioria das ONGs), invocam um indefinido consenso científico e sobretudo os trabalhos do IPCC como justificação decisiva. Invocam também o princípio da precaução, mas sem uma análise realista e convincente dos seus custos reais, económicos e sociais.

Segundo a UE/ONU, para evitar um desastre climático, as emissões globais de CO2, em 2050, deveriam situar-se em 10 a 20% das verificadas em 1990. Em 2020, o valor não deveria ultrapassar os 80%. Tal significa que, em 2050, a capitação do consumo de combustíveis fósseis teria de regredir, na Europa e nos EUA, para valores do primeiro quartel do século XX. Estes valores calendarizados não podem ser obtidos sem provocar um cataclismo social e económico semelhante a uma guerra global. e a prevenção do desastre poderia ter efeitos bem piores do que o desastre em si mesmo.

As versões científicas e os resumos políticos dos trabalhos do IPCC

último relatório do IPCC (WGI) foi precedido de um resumo, o Summary for Policymakers (SPM). O comunicado de imprensa que anunciava o SPM dizia que o mesmo iria ser discutido numa reunião entre 31 de Janeiro e 1 de Fevereiro e que “Government delegates at this Session will approve the Summary for Policymakers of the report line by line, and then accept the underlying report“.

O sumário foi aprovado antes de conhecido o relatório que resumia, cujo conteúdo final (ainda desconhecido) ficou automaticamente aprovado.

Quando se discute o SPM, está-se no domínio da discussão política/ideológica. Se forem invocados fundamentos científicos para o fazer, a honestidade intelectual e o rigor científico exigem que apenas se considere o relatório base.

Observações históricas da temperatura

As alterações climáticas foram praticamente reduzidas ao aquecimento global e o próprio aquecimento global limita-se a um conceito vago de subidas de temperatura. Esta imprecisão de conceitos, permite juntar, na mesma causa (as emissões de CO2eq), os efeitos mais díspares, mesmo que não tenham qualquer relação com ela.

Se, como faz o IPCC, a medida do aquecimento global é dada pela subida de temperatura junto ao solo (entendida como a semi-soma da temperatura máxima e da mínima a ~2m), os dados das observações termométricas que o IPCC utiliza dizem que nos últimos 150 anos essa subida global de temperatura não excedeu 0.8ºC, e que desde 1998 não sobe. O valor de 0.8ºC não tem nada de preocupante, tendo em conta as reconstruções históricas, baseadas em observações indirectas, as quais indicam que no período quente medieval tal subida teria sido bem superior à actual (~2º~3 ºC), sem que tivesse havido qualquer catástrofe climática. O próprio IPCC, no seu primeiro relatório científico, reconhece a existência deste período, que alguns designam por óptimo climático. No relatório do IPCC de 2001, a visão cientificamente consensual do período quente medieval foi substituída por uma reconstrução (hockey stick), transformada em ícone do aquecimento global devido a emissões de CO2. Essa reconstrução, hoje desacreditada, pretendia demonstrar que o aquecimento actual era uma excepção climática nos últimos 1000 anos. Uma vez que o seu início coincidia com o início da industrialização, concluía-se que o tal aquecimento excepcional só poderia dever-se às emissões de CO2 a que a utilização crescente de combustíveis fósseis dera origem.

Física Básica e Modelos Climáticos

Sob o ponto de vista da Física Básica, o CO2, tal como o vapor de água, é um gás com efeito de estufa, sendo o efeito do vapor de água muito superior. E, se podemos admitir a existência de um alargado consenso quanto ao CO2 e o vapor de água serem gases com efeito de estufa e de nos últimos 150 anos o aquecimento global não ter ultrapassado 0.8ºC (admitindo que os dados termométricos usados pelo IPCC estão correctos), é impossível falar de consenso científico quanto à evolução futura do aquecimento global.

Efectivamente, todas as antevisões das futuras alterações climáticas se baseiam nas leis físicas que regem os fenómenos fundamentais. Devido à sua complexidade, as equações são reformuladas para que uma solução computacional seja possível. Um aspecto central nesta reformulação consiste em dividir toda a atmosfera em paralelepípedos e substituir tudo o que passa no seu interior por valores médios. Devido às limitações dos supercomputadores actuais, a base dos paralelepípedos coincidente com a superfície (nos modelos utilizados pelo IPCC) tem cerca 110x110km, ou seja uma área de 12.100 km2, e uma altura variável segundo a vertical. O concelho de Lisboa, p.ex., representa menos de 0,7% da quadrícula em que o modelo considera tudo uniforme, nomeadamente a temperatura, e o vapor de água. Esta limitação tem grandes implicações porque não permite descrever os fenómenos físicos que têm grande variação no interior do paralelepípedo, nomeadamente a evaporação, a formação de nuvens e a chuva. Como o vapor de água é o gás mais importante com efeito de estufa e os modelos climáticos actuais não têm capacidade para o tratar directamente, o seu efeito é tido em conta multiplicando o efeito de estufa do CO2 por uma constante, o chamado factor de feedback. Este factor é empírico e muito variável de modelo para modelo. Consoante o seu valor, o efeito da concentração da atmosfera em CO2eq tanto pode provocar um enorme como um insignificante aquecimento. Pode também provocar arrefecimento, tudo dependendo do tipo de nuvens e da altura a que se formam. Tipicamente, as nuvens baixas provocam arrefecimento (porque reflectem mais a radiação solar incidente) e as altas aquecimento. Os aerossóis têm efeito semelhante e, tal como o vapor de água (e as nuvens), não se distribuem globalmente de modo uniforme como o CO2eq.

Em resumo, toda a antevisão da evolução futura do clima se baseia em modelos climáticos e é a versão alarmista dos resultados obtidos (utilizados pelo IPCC) que é invocada para legitimar os cortes drásticos nas emissões de CO2eq. Estes resultados carecem de fundamentação científica porque dependem criticamente de (inúmeros) parâmetros subjectivos.

Convidados

thumb-membro

Jos Manuel Duro Barroso

Presidente da Comisso Europeia

thumb-membro

Benny Peiser

Director da The Global Warming Policy Foundation

Na declaração final da cimeira de Copenhaga, José Manuel Durão Barroso sublinhou a disponibilidade da UE para reduzir, até 2020, o nível de emissões de 1990 em 30%, caso outros estejam também disponíveis para o fazer. O presidente da Comissão Europeia reiterou a vontade da União Europeia de manter a liderança mundial na defesa de um acordo vinculativo sobre as metas de emissões. José Manuel Durão Barroso afirmou que proteger agora o planeta é menos dispedioso do que remediar mais tarde.

Fredrik Reinfeldt, primeiro-ministro sueco, e José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, conferência de imprensa, cimeira de Copenhaga, Dezembro 2009

The failure of the UN climate summit in Copenhagen is a historical watershed that marks the beginning of the end of climate hysteria. Not only does it epitomise the failure of the EU’s environmental policy, it also symbolises the loss of Western dominance. The failure of the climate summit was not only predictable – it was inevitable. There was no way out from the cul-de-sac into which the international community has manoeuvred itself. The global deadlock simply reflects the contrasting, and in the final analysis irreconcilable interests of the West and the rest of the world. The result is likely to be an indefinite moratorium on international climate legislation. After Copenhagen, the chances for a binding successor of the Kyoto Protocol are as good as zero.

The extent of the debacle and the shift in the balance of geopolitical power was demonstrated by the fact that the final accord was made without the participation of the European Union.

Climate poker

The failed climate summit caused a tectonic shift in international relations and left behind a new political landscape. After Copenhagen, green Europe looks rather antiquated and the rest of the world looks totally different. The principles on which Europe’s climate policies were founded and which formed the basis of the Kyoto Protocol have lost their power while the EU itself lost authority and influence.

The Asian-American Accord connotes a categorical No to legally binding emission targets. This means that a concrete timescale for the curtailing of global CO2 emissions, not to mention the reduction of the CO2 emissions, has been kicked into the long grass. The green dream of industrial de-carbonisation has been postponed indefinitely.

The NO is non-negotiable

The imminent danger of a legally binding climate treaty that would force developing nations to impose extremely costly restrictions on cheap energy and thus their economic growth and development was quashed. ‘Business as usual’ seems to be the veritable motto of international climate policy for years to come, if not for decades.

After all, the rejection by the developing world to commit to legally binding emission targets is not a tactical negotiation ploy. The categorical NO is absolute and non-negotiable. Due to the evident lack of realistic energy substitutes, developing countries have no choice but to continue to rely on the cheapest form of energy, i.e. fossil fuels - for the foreseeable future.

For too long, West leaders have been convinced that they are pursuing a clever strategy. The EU promised, in principle, a financial transfer of $30 billion in the next three years to poor countries. However, Manuel Barroso, the president of the European Commission, made perfectly clear that the climate billions are conditional on an international agreement with binding emission limits. The Copenhagen fiasco will undoubtedly trigger a rethinking of the European climate policy.

Loss of credibility

Climate science too is facing a crisis of credibility. It is confronted by growing doubt and criticism, not in the least as a result of the so-called Climategate scandal, the revelations about the behind-the-scene shenanigans by leading climate researchers. Moreover, the unforeseen arrest of the global warming trend has only increased the credibility crisis and has led to growing and deepening scepticism among wide sectors of the public. The standstill global warming, as well as the global economic crisis have greatly dampened the enthusiasm for expensive climate policies as well as for green taxes and exorbitant subsidies.

Above all, the debacle of Copenhagen shows that conventional climate policies have no future. What is necessary now is the development of alternative approaches that are politically realistic and economically feasible.

It is quite possible that global temperatures might start rising again in the foreseeable future. Admittedly, no one knows exactly if and when this will happen – and if, whether the renewed warming trend will be pronounced, moderate or insignificant. In all likelihood, we will not know for the next twenty or thirty years who will be right or wrong - the climate sceptics or the alarmists. Nevertheless, as long as the global warming standstill continues, more or less, and as long as the political deadlock between the West and the rest of the world lingers, international climate politics will remain firmly on ice.

Moderador

Moderador

Os nossos convidados estão de acordo sobre qual deve ser, no essencial, o rumo da política energética, mas não foi essa a pergunta lançada pelo Contraditório.

A dúvida subsiste e, sem o devido esclarecimento, não há a clarificação que se impõe sobre se o aquecimento global é atribuído a causas humanas e, consequentemente, se um plano calendarizado de redução das emissões de gases de estufa deve ser aprovado.

Qual é a ligação entre CO2 e o aquecimento global? É a concentração de CO2 que faz aumentar a temperatura ou, pelo contrário, o aumento de temperatura precede o aumento da concentração de CO2?

Pedro Miranda disse que “observar uma figura é, em geral, mais elucidativo que olhar para a tabela de números que essa figura representa”. Mas para que figura devemos olhar? Para a figura 2 que Pedro Miranda publicou nos seus argumentos iniciais? Ou para a figura 1 que José Delgado Domingos apresentou no contraditório?

Impõe-se um esclarecimento sobre a questão em aberto. Como pode a ciência apresentar resultados diferentes sobre as mesmas observações, para o mesmo período de tempo, através da análise das mesmas variáveis: CO2 e temperatura?

Contraditrio

Sim thumb-membro

Pedro Miranda

Universidade de Lisboa, Instituto Dom Luiz Centro de Geofsica

Não thumb-membro

Jos Delgado Domingos

Instituto Superior Tcnico

O IPCC e o “consenso”

O debate científico baseia-se no sistema de publicações peer-review (com revisão por cientistas da mesma especialidade), base de todo o progresso científico do último século. A investigação original sobre mudança climática é realizada, em Universidades e Institutos de Investigação (não no IPCC), por investigadores com diferentes motivações e submetida para publicação num conjunto alargado de revistas de referência (52 revistas indexadas na área de Meteorologia e Ciências da Atmosfera). Uma análise das publicações indica que existe, naturalmente, um debate aceso sobre muitos aspectos da ciência do clima. Os relatórios do IPCC são baseados exclusivamente numa revisão de literatura científica publicada em revistas indexadas.

Quando se diz que existe “consenso” na comunidade científica sobre a mudança climática, estamos a falar dos grandes traços do problema, não sobre todos os seus aspectos. De facto, a quase totalidade dos investigadores relevantes na área reconhecem que estamos num período de aquecimento e que esse aquecimento está relacionado com o aumento da concentração de CO2. As figuras que apresentei no meu texto inicial mostram pontos de consenso muito importantes e põem o foco naquilo que é central: a relação observacional entre CO2 e clima (Figura 1), a evolução recente observada do CO2 e da temperatura (Figura 2) e a demonstração da capacidade dos modelos de clima representarem a evolução recente (Figura 3).

Modelos climáticos

Contrariamente ao que é dito pelo meu contraditor, os modelos actuais de clima representam explicitamente o vapor de água: calculam a evaporação de superfície, o transporte, transições de fase e precipitação. A utilização de factores empíricos de feedback foi uma realidade no passado, mas não se verifica nos modelos modernos. E, no entanto, todos os modelos capazes de reproduzir o clima recente, prevêem um aquecimento em resultado do aumento de CO2.

Os modelos têm, é claro, limitações. Algumas vêm da resolução espacial utilizada, outras de desconhecimento do estado detalhado do sistema climático. No estudo de um sistema tão complexo, as limitações são inevitáveis. A qualidade dos modelos pode no entanto ser aferida de forma objectiva e ela mostra-nos que eles têm capacidade preditiva (Figura 3).

Vapor de água e CO2

Todas as questões levantadas pelo meu contraditor foram já objecto de discussão detalhada na literatura científica, nalguns casos ao longo de 1 século! O próprio Arrhenius se apercebeu (em 1896) de que não podia discutir o papel do CO2sem falar do vapor de água. Foi Arrhenius quem primeiro propôs a existência de um processo de feedback entre o CO2 e o vapor de água, conceito altamente inovador para a época.

As razões dos diferentes papéis do CO2 e do vapor de água foram parcialmente abordadas no meu texto inicial. Contrariamente ao CO2 o vapor de água tem uma concentração muito variável na atmosfera, com valores elevados (até cerca de 1%) junto da superfície e valores quase nulos acima da tropopausa (situada a cerca de 12km de altitude). É fácil mostrar que a adição de gases de estufa nas zonas mais altas (e mais frias) da atmosfera tem um impacto mais elevado sobre o efeito de estufa, aquecendo a superfície. Por uma razão muito semelhante, as nuvens baixas forçam um arrefecimento da superfície, enquanto as nuvens altas forçam o seu aquecimento.

Uma outra diferença fundamental entre estes dois gases resulta da natureza das suas fontes atmosféricas. No caso do vapor de água, as suas fontes (evaporação) são controladas pela própria atmosfera, visto que existe sempre um reservatório irrestrito de vapor na superfície dos oceanos. Isso quer dizer que a atmosfera terá em cada instante o vapor que for possível evaporar e reter. Num mundo mais quente, a atmosfera terá, naturalmente, mais vapor: essa a razão do feedback proposto por Arrhenius.

Olhar para as árvores vendo a floresta

Num sistema complexo há, por natureza, muitos detalhes a considerar. Esses detalhes são importantes, mas não devem fazer-nos esquecer as questões centrais. Observar uma figura é, em geral, mais elucidativo que olhar para a tabela de números que essa figura representa. O nosso cérebro vê a figura como um todo e toma nota do que é essencial. Um bom exemplo é dado pela curva da evolução recente da temperatura (Figura 2, curva vermelha). Essa curva diz-nos que o clima está a aquecer, de forma irregular é certo, mas sem dúvida a aquecer consistentemente. O último ano não é o máximo da curva (nos dados da NASA o máximo ocorreu em 2005, mas com umas centésimas de diferença poderá ter ocorrido em 1998 como propõem os dados do CRU). Mas a própria figura, com todo ruído que ela revela diz-nos que isso não é importante.

É talvez ainda mais interessante pensar novamente sobre a Figura 1. Deixar os olhos correr as duas curvas quase paralelas. Esta figura sugere uma ligação fundamental entre clima e CO2. É evidente que qualquer explicação alternativa para a evolução climática da Terra tem que explicar essa ligação.

Atmosfera e Oceano

Antes de terminar esta argumentação é importante explicar porque razão é de esperar que o aquecimento global se dê de forma irregular. O aumento do efeito de estufa traduz-se num fluxo adicional de calor que é utilizado para aquecer o planeta. O planeta tem uma massa enorme mas só uma pequena parte vai receber esse calor: a atmosfera, inevitavelmente, mas também uma parte do oceano. Só a camada superficial do oceano é aquecida. A circulação oceânica distribuirá o calor em profundidade, mas muito lentamente. Ora, nós sabemos que a circulação oceânica tem variabilidade interanual e interdecadal. Um ligeiro incremento dessa circulação pode aumentar o transporte de calor, atrasando o aquecimento da superfície.

A minha oposição a “um plano calendarizado de redução das emissões de gases de estufa”, foi aparentemente interpretada, por alguns dos comentadores, como uma defesa do nada fazer relativamente às alterações climáticas, o que é falso. Em verdade, e como todas as minhas intervenções públicas demonstram [aqui e aqui], a obsessão com alterações climáticas originadas pelas emissões de CO2, ao absorver a maioria dos recursos disponíveis, prejudica gravemente as medidas de redução dos efeitos da variabilidade climática natural e da degradação do ambiente.

Neste contexto, o “plano calendarizado de redução das emissões de gases de estufa” que a União Europeia levou à Conferência de Copenhaga não tem fundamentação científica sólida, pelas razões que sucintamente enunciei na minha primeira intervenção. Em contrapartida, as conclusões que enunciei no trabalho já referido, entre outros, podem sintetizar-se como:

“Tendo em conta que (segundo os autores principais do próprio IPCC) não há nada que possamos fazer para reduzir os efeitos das emissões antropogénicas nos próximos 20 ou 30 anos, impõe-se concluir que de nada valerá o custo social e económico desse esforço de redução motivado pelos seus presumidos efeitos a mais de 50 anos de distância se o mundo que até lá construirmos não for mais justo e habitável à escala global do que hoje o conhecemos.

É por isso que se impõe:

Dar prioridade aos investimentos que são simultaneamente recomendados pela política energética e pelo combate à degradação do ambiente, e prevenir as consequências da variabilidade climática.

Ou seja, enfrentar desde já as certezas sem descurar a eventualidade das incertezas climáticas se virem a manifestar”

Resposta ao Prof. Pedro Miranda

O parágrafo final da intervenção do Prof. Pedro Miranda e as conclusões que apresentei e acima transcrevi não diferem muito quanto ao conteúdo. A diferença fundamental está na confiança que os modelos climáticos inspiram ao Prof. Pedro Miranda e o levariam a apoiar a calendarização dos cortes nas emissões propostas pela União Europeia em Copenhaga. Esta perspectiva conduz a tornar o corte nas emissões o objectivo central das políticas a seguir, do que discordo. Mas estamos de acordo quando afirma que “a maior parte das medidas propostas seriam necessárias mesmo sem mudança climática. Sucede, porém, que a diferença de prioridades tem grandes implicações porque, sendo parcos os recursos disponíveis, é necessário fazer escolhas. Esta questão foi abordada por mim na elaboração da Estratégia Energético-Ambiental para Lisboa e na fixação dos objectivos (já) assumidos pela CML e a decisão foi a de que a redução nas emissões de CO2 devia ser encarada como a consequência de uma politica energética e não a sua razão de ser. Por isso, os resultados de Copenhaga não afectaram em nada, nem as motivações nem os objectivos assumidos pela CML. As emissões de CO2 são um índice útil, tal como PIB, e não um objectivo em si mesmo.

A ligação CO2-Clima

Se na fig. 1 que o Prof. Pedro Miranda apresentou ampliarmos o período entre 150.000 e 100.000 anos atrás verifica-se que o aumento de temperatura precedeu o aumento da concentração em CO2, o que é contrário à inferência que defendeu:

No último relatório base do IPCC (WGI AR4, 2007, pp. 446) consta:

“Ice core records show that atmospheric CO2 varied in the range of 180 to 300 ppm over the glacial-interglacial cycles of the last 650 kyr.

The quantitative and mechanistic explanation of these CO2 variations remains one of the major unsolved questions in climate research.”

Na sua fig. 2 o Prof. Pedro Miranda apresenta a evolução da temperatura média global e da concentração de CO2 mostrando uma co-evolução a partir de 1960. Uma correlação não exprime, necessariamente, uma relação de causa-efeito, como muito bem refere. Mas as inferências do Prof. Pedro Miranda seriam bem mais plausíveis se entre ~1940 ~ 1975, em que houve arrefecimento global, as concentrações de CO2 tivessem diminuído, o que não foi o caso. Surpreende-me, por isso, que apenas tenha indicado as concentrações medidas em Mauna Loa a partir de 1960 e tenha parado em 2000. Como sabe, a partir de 1998 a concentração em CO2 continuou a aumentar mas a temperatura não. Invocar apenas que o sistema está fora do equilíbrio e que por isso as variações são rápidas e não correlacionam tão bem é pouco convincente, tanto mais que falta provar a validade da correlação que invoca e esclarecer de que equilíbrio fala.

A questão chave: previsão verificável

Todas as figuras com dados que o Prof. Pedro Miranda utilize terminam em 2000, quando dados muito significativos existem já para todo o 2009. Será porque a partir de 2000 todas as previsões feitas anteriormente se afastam significativamente das observações? Apresentar o resultado de modelos em que os parâmetros subjectivos foram ajustados para que se verificassem aceitavelmente os valores até aí observados não é fazer previsão mas sim pós-explicação. Se o modelo for fiável, o mesmo conjunto de parametrizações deve manter-se constante em todo o período simulado (1850-2010), podendo quando muito variar o valor do CO2 efectivamente emitido. A meu conhecimento, nenhum dos modelos conhecidos satisfaz este requisito.

A afirmação de que “todos os modelos que são capazes de reproduzir o clima recente prevêem uma intensificação futura do aquecimento global” é retórica, porque nenhum dos modelos satisfaz as condições acima expressas. Pós-explicação não é previsão. Para clarificar este ponto considere-se a famosa previsão feita por James Hansen em 1988:

Ou esta outra, relativamente à Península Ibérica, que figura numa publicação que se transformou em trabalho de referência no Plano Nacional para as Alterações Climáticas.

Dado o papel relevante que o Prof. Pedro Miranda teve neste trabalho seria extremamente importante que nos desse a comparação das previsões até 2100 com as temperaturas que foram observadas desde 2002, facultando simultaneamente todos os dados que utilizou.

Argumentos finais

Sim thumb-membro

Pedro Miranda

Universidade de Lisboa, Instituto Dom Luiz Centro de Geofsica

Não thumb-membro

Jos Delgado Domingos

Instituto Superior Tcnico

Resposta ao Prof Delgado Domingos

O Prof. Delgado Domingos viu mal (e até insiste duas vezes no mesmo erro factual). A Figura 2 inclui dados até 2009 e não até 2000. E é muito claro que a figura não apoia as palavras do Prof Delgado Domingos sobre a última década. Por isso, talvez, ele se enganou e pensou que a última década não estava lá…

Vamos então à única questão científica relevante levantada pelo Prof. Delgado Domingos: a explicação do desfasamento entre a evolução temperatura e do CO2 revelada pelas bolhas de ar em Vostok. O problema é bem conhecido e tem sido discutido na literatura científica. A explicação aceite é a seguinte: as oscilações glaciares são controladas por variações orbitais da Terra, i.e. por pequenas variações da excentricidade da órbita e da obliquidade (ângulo entre o eixo da Terra e a normal ao plano de translação) e pela precessão dos equinócios. Estas variações alteram muito ligeiramente o ciclo anual da radiação solar, afectando a temperatura. O efeito directo, no entanto, é pequeno e não justificaria a oscilação glaciar. Dois mecanismos de amplificação são propostos: o primeiro é designado por feedback gelo-albedo, o segundo é revelado pelos dados de Vostok e envolve o CO2. Este segundo mecanismo, aquele que nos interessa na presente discussão, funcionaria do seguinte modo: um ligeiro acréscimo de temperatura reduz a capacidade do oceano reter CO2 (a água mais fria dissolve maior quantidade de CO2), o aumento de CO2 atmosférico aumenta o efeito de estufa aumentando ainda mais a temperatura. Temos assim um processo de feedback positivo que explica a transição entre o período interglaciar e o período glaciar.

Os dados de Vostok dizem-nos que existe um feedback positivo CO2-Temperatura. O feedback pode ser posto em acção de dois modos diferentes: devido a um aumento de temperatura por factores externos (e.g. variações orbitais) ou, directamente, devido a emissões de CO2.

O Prof. Delgado Domingos não compreende em que consiste uma “previsão climática”. Em rigor, as pessoas que fazem investigação em Clima (i.e., que não só têm opiniões sobre o assunto mas que publicam trabalhos originais em revistas científicas) não utilizam o termo “previsão” para falar de clima. O clima é uma descrição do estado “médio” da atmosfera, para períodos da ordem dos 30 anos (a “normal climática”). Quando discutimos um cenário de mudança climática, discutimos sempre estatísticas de períodos de várias décadas. A crítica que o Prof. Delgado Domingos faz aos trabalhos de James Hansen, baseada em comparações de períodos curtos, não tem rigor científico.

Finalmente, devo repetir que concordo que não devemos acreditar absolutamente em modelos. A obsessão é sempre má conselheira. As decisões que têm custos devem ser sempre prudentes. Mas é claro que não decidir também tem custos e pode reduzir drasticamente as opções das gerações futuras. Não cabe, no entanto, aos cientistas atmosféricos fazer esse cálculo, mas aos economistas e aos sociólogos. E a decisão é, naturalmente, política.

Não sejamos ingénuos. A razão pela qual o debate climático acende tanto alguns ânimos é o facto de ele ter grandes implicações. Não é por acaso que a anterior administração americana sempre assumiu uma posição negacionista em relação ao aquecimento global. As medidas necessárias para reduzir emissões podem afectar interesses instalados, incluindo interesses legítimos.

Podem os cientistas, com os mesmos dados, chegar a conclusões diferentes?

Há muito poucos cientistas que subscrevam as opiniões negacionistas (ainda que envergonhadas) do Prof. Delgado Domingos. O progresso científico é um processo darwiniano de selecção, que se baseia na confrontação de ideias, e culmina no processo de decisão editorial das revistas científicas. Historicamente, trata-se de um processo com erros pontuais, como seria de esperar, mas que tem provado garantir um progresso consistente e direcção à verdade. Sendo claro que a quase totalidade dos investigadores activos na área do clima, e inúmeras organizações científicas, concordam que estamos num período de aquecimento global resultante de emissões de gases por queima de combustíveis, cabe a quem não concorde apresentar explicações alternativas e fazê-las publicar na literatura científica, com o standard de qualidade que aí é exigido.

Por alguma razão as opiniões negacionistas (sobre o aquecimento global ou sobre a teoria da evolução) têm um impacto desproporcionado fora do meio científico. Temos que viver com isso.

Resposta ao 2º Comentário do Prof. P.Miranda (PM)  

No comentário anterior, a minha afirmação “ Se na fig.1 (…) ampliarmos” pode induzir em erro porque não se tratou de ampliar a figura mas sim de representar dados  do mesmo local (Vostok) com mais pormenor e, sobretudo, mais actualizados. A fig.1 de PM, embora consensual nos anos 90, foi ultrapassada por trabalhos científicos posteriores, publicados na Nature e na Science, p.ex. Citando a Science “The sequence of events (…) suggests that the CO2 increase lagged Antarctic deglacial warming by 800 _ 200 years and preceded the Northern Hemisphere deglaciation”. Estes trabalhos foram acolhidos pelo WGI AR4, IPCC, 2007 e justificam citação da p.466 que dele fiz.

Modelos climáticos

PM não interpretou bem o que afirmei quanto aos modelos globais utilizados pelo IPCC. Efectivamente, devido a limitações na capacidade de cálculo, os modelos globais utilizados pelo IPCC utilizam factores empíricos de feedback contrariamente ao que afirma. Sublinhe-se a diferença entre “modelos climáticos actuais” e “modelos climáticos globais utilizados pelo IPCC”. Todos os melhoramentos invocados por PM na representação dos fenómenos físicos são utilizados nos modelos meteorológicos de mesoescala, como os que correntemente utilizamos na previsão diária para Portugal e que são cada vez mais utilizados como modelos climáticos regionais. Estes modelos servem para estabelecer ou testar o que designei por “factores empíricos”. Às limitações decorrentes da grosseira resolução espacial dos modelos globais utilizados (abordadas no 1º comentário), junta-se o desconhecimento de aspectos físicos fundamentais relativamente à formação e evolução das nuvens e também dos aerossóis, entre outros.

Para completar, refiram-se dois artigos muito recentes, na Nature onde se afirma que “Mysterious changes in the stratosphere may have offset greenhouse effect” e na Science de que citamos: “Stratospheric water vapor concentrations decreased by about 10% after the year 2000. (…)  this acted to slow the rate of increase in global surface temperature over 2000-2009 by about 25% compared to that which would have occurred due only to carbon dioxide and other greenhouse gases”.

Nenhum dos“modelos modernos” previu este efeito...observado.

Como pode a ciência apresentar resultados diferentes sobre as mesmas observações, para o mesmo período de tempo, através da análise das mesmas variáveis: CO2 e temperatura?

Esta questão, levantada pelo Moderador, tem dois tipos de resposta: a primeira é a de que o aparecimento de dados mais rigorosos e pormenorizados, alterando os pressupostos, pode alterar as conclusões. O exemplo de Vostok, que referi, ilustra bem este ponto, pois embora mostre uma relação entre CO2 e temperatura, levanta dúvidas quanto à relação de causalidade. Mas a resposta mais óbvia, tendo em conta a globalidade do tema, é a de que há factores importantes que não foram tidos em conta, uns bem conhecidos e (politicamente) desvalorizados (alterações no uso do solo, p.ex.) e outros de que desconhecemos pelo menos as interacções (bioesfera, p.ex.). Os modelos actuais, não têm adequadamente em conta estes factores e por isso as previsões baseadas nos actuais modelos não são fiáveis para neles basear decisões politicas com enormes repercussões sociais e económicas.

Não negando a existência de alterações climáticas de origem antropogénica, devemos sublinhar, isso sim, o agravamento dos efeitos da variabilidade climática natural (bem conhecida e consensual) devido aos modos de ocupação do solo, e a existência de factores, pelo menos tão importantes como o CO2, no aquecimento global verificado.

A Ciência do Clima, extremamente complexa e pluridisciplinar, foi politicamente apropriada ainda na sua infância, com graves consequências para o seu normal desenvolvimento. Ao exagerar-se a projecção mediática dos seus principais actores, o que deveria ser um debate normal em Ciência, conducente à identificação e correcção dos erros e insuficiências, transformou-se em combates pessoais, alimentados por lutas entre grandes interesses económicos e políticos e por lobbies de cientistas em busca de financiamento e notoriedade. Em meu entender, o climategate e o que sucedeu em Copenhaga tornou-se inevitável.

Anncio do vencedor

O nosso primeiro debate terminou e venceu o “SIM”. Os argumentos apresentados permitem concluir que sobre este tema não há respostas fáceis. A ciência tem um papel único ao oferecer argumentos baseados em factos, que por sua vez devem influenciar a tomada de decisão política. No final do debate as divergências mantêm-se.

Ao longo do debate Pedro Miranda defendeu que a ligação entre CO2 e a temperatura está solidamente suportada por observações e por modelos teóricos. Desta forma considera que existem razões científicas sólidas para aprovar um plano calendarizado de redução de emissão de gases de efeito de estufa. Apesar de concordar que “não devemos acreditar absolutamente em modelos. A obsessão é sempre má conselheira. As decisões que têm custos devem ser sempre prudentes”, Pedro Miranda afirma que não devemos ser ingénuos: “A razão pela qual o debate climático acende tanto alguns ânimos é o facto de ele ter grandes implicações”.

José Delgado Domingos, apesar de não negar a existência de alterações climáticas de origem antropogénica, tem dúvidas quanto à relação de causalidade entre CO2 e a temperatura. Para José Delgado Domingos “toda a antevisão da evolução futura do clima se baseia em modelos climáticos e é a versão alarmista dos resultados obtidos, utilizados pelo IPCC, que é invocada para legitimar os cortes drásticos nas emissões de CO2. Estes resultados carecem de fundamentação científica porque dependem criticamente de inúmeros parâmetros subjectivos”.

Foi sobretudo o interesse científico do debate que nos motivou, mas as implicações sociais e económicas da implementação de um plano calendarizado não devem ser menosprezadas, como aliás ambos os participantes concordaram.

Convidámos Benny Peiser e pedimos-lhe a sua opinião sobre o tema. Peiser sublinhou as consequências políticas do fracasso de Copenhaga que resumiu da seguinte forma: “The exclusion of Europe is a remarkable symbol of the EU’s growing loss of influence, a green bureaucracy that was not even asked whether they agreed with the non-binding declaration of China, India and the USA”. Ainda segundo Peiser, “Climate science too is facing a crisis of credibility”, e sugere uma alternativa: “Above all, the debacle of Copenhagen shows that conventional climate policies have no future. What is necessary now is the development of alternative approaches that are politically realistic and economically feasible”.

José Manuel Durão Barroso, pelo contrário, defende que o rumo deve manter-se e que “In the European Union we have no objection to hard negotiations on difficult issues, in order to continue to lead the world on legally binding emissions targets and climate finance for the poorest people on the planet”. O presidente da Comissão Europeia afirma que “the European Union remains ready and willing to move from a binding 20% reduction to 30% from 1990 to 2020 if others are also ready to move on ambitious deals”.

A maioria dos comentadores manifestou-se a favor de um plano calendarizado, no entanto os argumentos apresentados fogem da questão central. Se a discussão se colocar nos termos referidos nos comentários, em princípio todos estaremos de acordo: é fundamental reduzir a dependência energética; é importante encontrar alternativas viáveis para os combustíveis fósseis; reduzir os níveis de poluição…

Pedro Miranda referiu, e muito bem, que “o progresso científico é um processo darwiniano de selecção”. Na vida, como na ciência, não são os mais fortes que evoluem e, em última análise, sobrevivem, mas antes aqueles que melhor se adaptam ao mundo em que vivem. Qualquer pressuposto que procure validar a autoridade da ciência com base num consenso reclamado ou no número de cientistas que o defende não confere, por si só, qualquer autoridade à ciência. Segundo Carl Sagan, a ciência deve ser “uma vela num mundo assombrado por demónios”. O progresso científico nasce da interrogação e da análise, não do consenso.

Participe na discussão

O Contraditório confere a todos os utilizadores o direito de acederem, rectificarem e eliminarem os respectivos dados pessoais. Os dados recolhidos destinam-se apenas à identificação do autor da mensagem.


Código de validação

Comentários (9)

  • Guilherme Vasconcelos Vilaa 2 Maro 2010, 19:04 GMT
    ptima iniciativa. Quero salientar um ponto da discusso motivado pelo ltimo comentrio do moderador "No final do debate as divergncias mantm-se."

    De facto literatura recente tem enfatizado que o debate entre experts pode apenas acentuar o gap entre as opinies no produzindo de forma alguma consenso.

    Esta concluso s demonstra a inevitabilidade das escolhas polticas que ns, enquanto comunidade, temos que querer fazer. Dito de outra forma, bom saber que so os experts e cientistas a declarar que reduzir questes polticas a questes tcnicas no elimina (antes pelo contrrio) a dificuldade de obteno de consenso.
  • Jos M. Sousa 28 Fevereiro 2010, 13:02 GMT
    A crise energtica (pico petrolfero, etc.) por si s justificam grande parte das medidas para conter as alteraes climticas. Ver WEO 2009 da Agncia Internacional de Energia.
  • Antnio P. 25 Fevereiro 2010, 0:12 GMT
    Felicito o CONTRADITRIO por este primeiro debate.
    Pelo tema. Pela qualidade dos defensores de cada uma das posies.
    Aguardo o prximo.
    Cumprimentos
  • Jorge Pacheco de Oliveira 22 Fevereiro 2010, 7:06 GMT
    A minha opinio NO, porque no acredito que a concentrao de CO2 na atmosfera tenha os efeitos que lhe atribuem os adeptos da teoria do global warming.

    Os mais mediticos defensores desta teoria nunca me inspiraram confiana, o que no ser um argumento propriamente cientfico, mas a verdade que os escndalos de manipulao de dados e de fraudes que tm vindo a ser revelados, praticados pelos (pseudo) cientistas do IPCC e de organizaes congneres, apenas vieram confirmar as suspeitas.

    Se a teoria do global warming ainda no est morta e enterrada, para l caminha a passos rpidos e debates como este vo-se tornando dispensveis.

    O debate, agora, deveria centrar-se na definio de polticas energticas isentas do fantasma do global warming, argumento que tem sido usado para defender medidas altamente criticveis, que tm tornado a energia cada vez mais cara para as populaes, ao mesmo tempo que beneficiam promotores de energias renovveis e intermedirios financeiros do infame esquema de cap-and-trade, que regula o comrcio de direitos (!) de emisso de dixido de carbono.
  • Andr Silva 21 Fevereiro 2010, 0:13 GMT
    Sob um ponto de vista puramente emprico, parece-me bvio que a moderao nas emisses de CO2 deve ser uma prioridade na grande maioria dos pases desenvolvidos.

    Independentemente de crenas, teorias, argumentos ou provas cientficas, importante ter em conta que uma responsabilidade comum a preservao do meio ambiente e a procura constante de alternativas que nos permitam viver com o mximo de qualidade e o mnimo de impacto negativo no nosso patrimnio natural.
  • Joao Manuel Gouveia Cid Torres 20 Fevereiro 2010, 12:28 GMT
    Subscrevo a opinio da Flvia Carvalho.
    Independentemente dos efeitos directos ou no no aquecimento global, temos de minimizar o impacto no meio ambiente das nossas actividades.
    Ou seja fundamental reduzir a poluio em nome da qualidade de vida das geraes vindouras
  • Isabel Maria Viana Moo Martins Alves 17 Fevereiro 2010, 22:53 GMT
    Concordo com uma calendarizao para a diminuio de Co2 e de outros gases que intensificam o efeito de estufa.Essa calendarizao deve ser diferente para os pases desenvolvidos e os em vias de desenvolvimento.

    Alm disso os pases do Norte devem disponibilizar tecnologia e formar quadros no Sul para que esses objectivos sejam entendidos como factor de sustentabilidade do Planeta(Patrimnio Comum da Humanidade)
  • Ecotretas 10 Fevereiro 2010, 13:25 GMT
    A argumentao de Pedro Miranda infeliz, dado que se sabe que as subidas de CO2 ocorreram, no passado, centenas de anos depois das subidas das temperaturas se iniciarem. Para que fique claro: primeiro subiram as temperaturas, e depois o CO2. claro que os alarmistas invocam que este delta inicial pequeno comparativamente durao dos perodos de aquecimento, e at fazem percentagens, mas no h dvidas aqui sobre o problema do ovo e da galinha...
    Ainda bem que o moderador falou no vapor de gua. E at o Pedro menciona as percentagens do vapor de gua, que na verdade variam entre 1% e 4%, portanto duas ordens de magnitude maiores que as do CO2... Portanto, porque no se enfocam os cientistas neste problema maior que o vapor de gua? Porqu???
    Enfim, vivemos tempos deja-vu de h 500 anos. Precisamos de mais Galileus para romper com esta teoria religiosa do Aquecimento Global. Felizmente, no falta muito para que a sociedade se d conta de toda esta trapalhada, que s agora os Media comearam a apanhar, mas que anda na blogosfera h j alguns anos...

    Ecotretas
  • Flvia Carvalho 9 Fevereiro 2010, 17:16 GMT
    Sou uma civil, leiga na matria, mas atenta.
    Enquanto habitante do mesmo globo do que a restante populao mundial, considero que, independentemente da causalidade directa da emisso de CO2 no aquecimento global, todas as medidas, devidamente ponderadas, que diminuam as referidas emisses, sero benficas ao ambiente.

    Ou seja, ser certamente importante compreender cientificamente a causa e efeito do aquecimento global.
    Mas certo que o lanamento de CO2 para a atmosfera prejudicial, no s ao ambiente, como a ns prprios. Logo - absolutamente a favor de moderar as emisses.