Dilma e a nova velha história do Brasil

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Eduardo Passos

Investigador
"Uma das potências emergentes que tem ajudado a mudar a nossa percepção de como o poder é distribuído no mundo é o Brasil"

Publicado a 24 Janeiro 2011 em Relações Internacionais

Francis Fukuyama ficou conhecido por decretar no final da Guerra Fria o fim da História. O argumento não era totalmente original mas serviu para dar fama ao autor e dar uma nova missão à única superpotência que restava, os Estados Unidos. A tese de Fukuyama comprovou-se errada. A emergência de novas potências, nem todas democráticas, ajudou a refutar essa ideia que a História terminou. Por isso podemos entender as mudanças no mundo e os novos actores globais de forma realista e não abraçar teses extremas, utópicas, para escolher modelos de governação a seguir.

Uma das potências emergentes que tem ajudado a mudar a nossa percepção de como o poder é distribuído no mundo é o Brasil, que elegeu pela primeira vez na sua história uma mulher como presidente, Dilma Rousseff. Sem nunca ter participado em outra eleição, a não ser nesta que venceu, Rousseff é por isso para muitos uma incógnita. O seu maior desafio será tentar sair da sombra do seu mentor (o anterior presidente Lula da Silva) e tentar fazer uma gestão realista dos ganhos dos últimos anos e efectuar os reajustes necessários para não travar o crescimento brasileiro. A euforia com a emergência brasileira não pode contaminar os seus dirigentes políticos de forma a tomarem decisões que nada têm a ver com os reais interesses brasileiros, como se deu no último ano da presidência Lula.

O triunfalismo brasileiro por vezes faz-nos recordar a tese de Fukuyama no final da década de 90, mas às avessas. Vejamos: a emergência do Brasil deve-se principalmente ao seu grande e rápido crescimento económico nos oito anos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Este crescimento não ficou apenas entre os ricos ou circunscrito ao mundo financeiro, e chegou em forma de assistencialismo às classes mais baixas brasileiras. 

O facto de uma grande parte do povo brasileiro passar de uma situação de total miséria para um nível em que algumas das condições básicas de sobrevivência passaram a ser supridas, nomeadamente a nível da alimentação, fez que com que Lula deixasse o cargo com uma taxa de aprovação bastante alta, na casa dos 80%. A própria história de Lula ajuda-o a incorporar o papel de salvador de uma nação que por séculos apenas serviu as suas elites em detrimento do povo.

Mas a procura de heróis na história do Brasil não é algo atípico, aliás, após o fim do Império, essa busca por um salvador que protegesse o povo das elites mal intencionadas foi a regra. Primeiro com a República que prometia todo um mundo novo além daquele que a conservadora e arcaica monarquia brasileira poderia oferecer. Apesar de algumas reformas políticas a cargo de alguns presidentes civis republicanos, a primeira República brasileira deixou a imagem de que apenas a oligarquia que dominava o país é que tinha direitos e então foi-se buscar um novo salvador: Getúlio Vargas. Este não quis saber dos incómodos de uma república que na teoria pretendia ser mais ou menos democrática e fixou-se no poder como ditador. Fez importantes reformas e ainda hoje é visto como o maior presidente do Brasil. Depois de Vargas, o Brasil parecia ir caminhando até à democracia até que o país viu-se envolvido no jogo da Guerra Fria e a paranóia comunista ajudou a que mais uma ditadura se instalasse em solo brasileiro, desta vez de carácter militar. Os militares apenas abandonaram o poder no início da década de 80, quando a transição para o actual modelo democrático se deu.

Mas se a chegada da democracia previa que não fossem precisos mais heróis para consertar o país então é quando surgem novos vilões: as elites corruptas e o neoliberalismo. Fernando Collor de Mello, um político que surgiu do nada, que como marca positiva teve a abertura do país ao capital estrangeiro, mas que se arruinou na corrupção, em medidas económicas desastrosas que levaram ao confisco das poupanças dos cidadãos e à alta inflação.

Já Fernando Henrique Cardoso (FHC) foi o cérebro por trás do Plano Real (ainda na presidência de Itamar Franco) que revigorou e deu estabilidade à economia brasileira. Lula e o seu partido, o Partido dos Trabalhadores (PT), foram na altura contra este plano. Os dois mandatos de FHC ficaram ainda marcados por uma série de privatizações, como a da companhia brasileira de minas, Vale do Rio do Doce, que hoje é uma das maiores do mundo neste sector, e do ramo das telecomunicações, que hoje proporciona a milhões de brasileiros a possibilidade de usufruírem de telefone móvel e aos investidores nacionais e internacionais a oportunidade de entrarem num mercado com grande margem de crescimento.

Fernando Henrique Cardoso, devido a estas privatizações, foi taxado de neoliberal. Com a economia a crescer a números pífios e com o povo a não sentir no bolso as melhorias há muito desejadas, muito por causa do efeito de duas difíceis crises económicas, como a crise mexicana em 1995 e poucos anos depois, em 1997/98, a crise asiática, ficava assim aberto o caminho para um operário com origem humilde, para não dizer miserável, chegar ao poder e, com a legítima autoridade de ser o verdadeiro representante do povo brasileiro, fazer aquilo que muitos tentaram e nunca foram bem conseguidos: dar uma vida digna aos milhões de pobres que ainda hoje habitam no Brasil.

Lula, um ex-sindicalista, era um político com ideias radicais de esquerda que para subir ao poder comprometeu-se a seguir as regras do jogo que tinham sido criadas durante os oitos anos de governo de FHC. Lula teve que perceber que, apesar de ter sido eleito quase como um novo herói, não podia lançar ao mar tudo o que já tinha sido feito por governos anteriores, tanto para o bem, como para o mal, e recomeçar a história outra vez.

Na prática foi isso o que aconteceu, mas o sucesso dos seus oitos anos de governo e a necessidade de fazer um sucessor, neste caso uma sucessora, levaram o PT e Lula a abraçar uma retórica do “nunca antes neste país”. Quem chegasse ao Brasil a partir do segundo mandato de Lula e fosse ler a imprensa brasileira poderia até pensar que o país tinha acabado de ser fundado, e Lula era o fundador e primeiro grande comandante da nação.

A história do Brasil não começou, nem acabou, com Lula. Após oito anos de euforia, Dilma tem agora de arrumar a casa. As suas primeiras medidas têm dado boas indicações. Talvez a mais surpreendente de todas é a de privatizar os novos terminais dos importantes aeroportos de Guarulhos e Viracopos, no Estado de São Paulo. Foi ainda noticiado recentemente pela imprensa brasileira que Dilma quer efectuar cortes de impostos nas empresas e diminuir a contribuição destas para a Segurança Social, tudo em nome da competitividade.

Noutra área que é preciso levar em conta, a política externa, percebe-se que algumas pequenas mudanças podem acontecer. Dilma parece não ter a mesma afinidade com o regime autocrático do Irão que teve Lula e o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Celso Amorim. A nova presidente certamente não terá o impacte mediático que Lula teve, apenas por questões de personalidade. Lula incorporava o showman; Dilma é aquela gestora que gosta de passar despercebida, se possível.

Estrategicamente a América do Sul continua a ser a prioridade da política externa brasileira. As duas primeiras viagens de Dilma serão à Argentina e ao Uruguai. Só depois se deslocará aos Estados Unidos e à China. E é em relação aos americanos que é preciso esperar para ver qual será a retórica usada pelo governo de Dilma. Se aquele anti-americanismo dissimulado de Celso Amorim e Lula, ou se um tom mais pragmático será adoptado. Para isso, a escolha de António Patriota, que foi embaixador em Washington, para ministro das Relações Exteriores pode ser importante. Patriota conhece a cultura e a política americana o suficiente para perceber que o Brasil não ganha nada em embarcar no típico anti-americanismo sul-americano e que uma relação estável pode ser produtiva para os dois lados.

Dilma sabe que tem muito capital político graças à popularidade do seu mentor. O facto de ter o Congresso a seu favor é mais um motivo para avançar com reformas importantes. A euforia que se viveu durante a festa dos governos Lula não durará para sempre e a conjuntura internacional não será para sempre favorável ao Brasil. Espera-se que o Brasil não volte a ter que começar outra História.

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