“Devemos pescar onde há peixe e não quando está bom tempo”

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Luís Faria

Investigador e Presidente do Contraditório
"Os clusters são vistos como o cálice sagrado dos governos um pouco por todo o mundo"

Publicado a 20 Janeiro 2011 em Economia e Finanças

Nunca ouvi nenhum caso de um decisor político que tenha sido dispensado por promover clusters. Os clusters são vistos como o cálice sagrado dos governos um pouco por todo o mundo. Mas os governos optam por abordagens erradas quando chega o momento dos clusters florescerem. Muitas vezes os governos perseguem ideias utópicas através da implementação de estratégias inadequadas que põem em causa colossais investimentos públicos.

Novos projectos e novas práticas devem emergir por tentativa e erro, da iniciativa privada e do sector sem fins lucrativos que devem comprometer-se com uma experimentação contínua e não com prescrições aleatórias definidas por burocratas. É um erro atirar dinheiro fácil para cima de empreendedores, mesmo aqueles com maior potencial. O dinheiro fácil apenas serve para engordar oportunistas. Os novos projectos devem enfrentar os desafios de um mercado livre desde a sua criação e vingar graças à sua qualidade.

Os governos sentem uma atracção irresistível pela criação de incubadoras de start-ups. A Harvard Business Review publicou um artigo em que demonstra que há apenas negligenciáveis confirmações de que estes dispendiosos programas contribuem para a promoção do empreendedorismo. Por exemplo, entre as centenas de projectos israelitas que obtiveram uma forte valorização, apenas 5%, na versão mais optimista, nasceram em incubadoras. As incubadoras não constituem uma solução rápida, nem mesmo o renomeado programa de incubadoras israelita. Em países em que as boas práticas não são aplicadas e onde os programas são mal concebidos, uma incubadora pode facilmente tornar-se num elefante branco. Todavia, em países onde as boas práticas são aplicadas os resultados destes consideráveis investimentos podem surgir mas pode demorar 20 ou mais anos até que se possa medir o impacte no empreendedorismo.

Contudo os governos não devem fugir às suas responsabilidades. Países como o Ruanda, o Chile, Israel e a Islândia são um terreno fértil para os empreendedores desenvolverem as suas ideias e, em parte, deve-se ao esforço dos seus governos. O melhor que os governos devem fazer para incentivar o empreendedorismo é reduzirem a regulação e as barreiras ao livre mercado. Seria extremamente útil se os governos deixassem de distribuir dinheiro numa vã tentativa de clonagem de Silicon Valley. Os governos que realmente se interessam pela promoção da inovação devem corrigir as distorções de mercado e o existente excesso de regulação.

Silicon Roundabout, em Londres, deu origem a cerca de 100 empresas de alta-tecnologia que emergiram e rapidamente cresceram sem o apoio directo do governo e sem quaisquer ligações directas a universidades. Este devia ser um exemplo para os países que tentaram implementar clusters e “hubs” tecnológicos sem sucesso. Os clusters que reúnem empreendedores existem naturalmente e podem ser importantes elementos orgânicos de um ecosistema, mas são questionáveis os resultados da acção dos governos ao alimentá-los directamente numa primeira fase. 

O papel dos governos deve ser o de manter a sua neutralidade sectorial e dar liberdade à energia dos empreendedores. Em vez de empurrarem os empreendedores para aquilo que consideram serem os “caminhos certos” que devem ser desimpedidos de quaisquer obstáculos que impeçam os “empreendedores” de prosseguir o seu o caminho em segurança e avançar rumo ao sucesso, as políticas públicas deviam, pelo contrário, encorajar o empreendedorismo através da remoção transversal, e não sectorial, de obstáculos. É necessário acabar com a tentação do planeamento centralizado. 

Apesar de serem muitas as vozes a clamar ser impossível mudar características fortemente enraizadas numa cultura, os exemplos da Irlanda e do Chile demonstram que é possível mudar algumas normas sociais em menos de uma geração. Resta saber se queremos continuar presos a preconceitos sociais infundados, a ajudas sectoriais a “campeões nacionais” e continuar a aceitar projectos pouco rigorosos e modelos de desenvolvimento baseados em ideias que soam como música apenas para alguns ouvidos. 

Se queremos promover boas práticas temos de aprender um provérbio islandês que diz que “devemos pescar onde há peixe e não quando está bom tempo”.

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Comentários (1)

  • Francisco Rebello de Andrade 15 Fevereiro 2011, 18:58 GMT
    É a velha questão de se começar a construção de uma casa pelo telhado! Efectivamente não vale de todo a pena gastar milhões de euros na construção dos citados \"Clusters\" se não houver toda uma envolvente económica que permita às empresas crescer apenas dependentes do talento dos seus empreendedores.
    Considero que uma das questões centrais é a gritante falta de qualidade dos Quadros que compões as Instituições Públicas promotoras dos \"Clusters\". Como a qualidade não é muita, a criatividade também corresponde e torna-se muito mais fácil \"despejar\" Euros e passar toda a responsabilidade para o Sector Privado do género \"dei-te dinheiro e agora não consegues???\".

    Outra das questões é que normalmente a origem do dinheiro é da UE que não precisa a forma como devem ser escoados esses subsídios. Assim, a única coisa que ao Estado Português importa é transferir os dinheiros, sem pouco se importar se são projectos viáveis ou não. Desde que enviem para a UE a informação de que os dinheiros foram aplicados tudo acaba bem. E muitas vezes vemos estatísticas do género \"Portugal com boa classificação no que diz respeito a investimentos na Tecnologia\". Mas depois e resultados???E a sobrevivência a médio-prazo das Empresas??? Como todos sabemos a fase de Investimento é apenas o começo. O pior vem depois...

    Enquanto as análises foram feitas apenas quantitativamente e não de forma qualitativa andamo-nos a enganar todos uns aos outros.