A armadilha dos resgates

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Luís Faria

Investigador e Presidente do Contraditório
"Aos bancos deve ser dado o direito de viverem numa economia de mercado. Caso contrário, seremos sempre nós a perder"

Publicado a 21 Julho 2011 em Economia e Finanças

Há um argumento sedutor que ultimamente tem encantado a Europa: devemos permitir que países com baixo rendimento e muito expostos ao risco continuem a receber empréstimos baratos protegidos por uma classificação máxima de triplo A. Isto quer dizer embrulhar lixo tóxico em instrumentos financeiros que são depois avaliados como AAA. Esta história é-lhe familiar? É importante que a Europa mantenha os spreads das taxas de juro entre os diferentes países por forma a assinalar o risco a que os países estão expostos, de outra forma estaremos a criar mais condições para que tenhamos em breve uma outra crise financeira. Por que razão um investidor amante do risco e que com isso recebe bons rendimentos deve ser resgatado quando a sorte de repente muda de feição? É tempo de acabar com alguns mitos europeus feitos à custa dos contribuintes.

Todos devem ter a liberdade de falhar ou falir. Os bancos não são excepção. Desta forma os credores seriam incentivados a reforçar a supervisão e os contribuintes estariam mais protegidos. Simultaneamente, os investidores seriam estimulados a impor disciplina aos bancos e a exigir mais transparência no futuro. É verdade que podemos generalizar este argumento e dizer que a todas as empresas devia ser dada a oportunidade de falhar, em vez de serem subsidiadas com dinheiro dos contribuintes. A questão moral que aqui está em causa é a de saber se o sector financeiro e os outros privilegiados estão preparados para aceitar viver numa economia de mercado.

As bases da próxima crise estão a ser construídas, os desequilíbrios estão novamente a formar-se e devemos estar preparados para a próxima crise financeira. O papel dos governos e dos reguladores deve ser o de não dar os incentivos errados, estabelecer regras gerais e dar aos bancos a possibilidade de falharem. O risco e os prémios excessivos teriam outro significado. Mas, pelo contrário, governos e reguladores estão a construir um sistema baseado na micro regulação e em garantias implícitas suportadas pelos contribuintes. Enquanto os bancos forem protegidos das regras do mercado, os seus comportamentos manter-se-ão inalterados e estaremos expostos a mais problemas.

Aos bancos, tal como às empresas, deve ser dado o direito de viverem numa economia de mercado. Caso contrário, seremos sempre nós a perder.

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Comentários (2)

  • maria do carmo pais 1 Novembro 2011, 10:46 GMT
    Concordo plenamente! Porquê que os bancos não podem falir? se uma empresa que é mal gerida vai à falência...
  • Paulo Leite 27 Julho 2011, 5:24 GMT
    Esta questão dos ratings e da crise que a Europa atravessa está directamente relacionada com um problema intelectual grave: em 2011 a Europa ainda está no século XX no que diz respeito às questões de política e de economia.

    Infelizmente o Mundo evoluiu muito mais rápido do que aqueles que nos têm governado (e gerido) - muitos deles ainda olham para os panoramas de política interna com olhos de 1968.