O Caso "Flotilla" e o Xadrez Geopolítico no Médio Oriente

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Rui Faro Saraiva

Investigador
"O episódio mediático do Caso “Flotilla” junta-se a tantos outros no contexto do Conflito Israelo-Palestiniano"

Publicado a 10 Junho 2010 em Relações Internacionais

Desde o início do bloqueio de Gaza que Israel se encontra enfraquecido aos olhos das potências ocidentais. As razões humanitárias não têm desencadeado grandes avanços ou recuos nas negociações para a paz, apesar do mediatismo e da mobilização da opinião pública internacional. A questão central reside na criação de um Estado palestiniano e no mútuo reconhecimento de Israel e da Palestina, assim como a necessidade de reconciliação entre o Hamas e a Fatah. O episódio mediático do Caso “Flotilla” junta-se assim a tantos outros, no contexto do Conflito Israelo-Palestiniano. 

No entanto, é possível observarmos, a partir do Caso “Flotilla”, a tendência para uma reformulação das relações entre os Estados da região, naturalmente com implicações globais.

Tornou-se claro para os decisores políticos americanos que os seus interesses não podem ser defendidos sem a cooperação do mundo árabe e muçulmano. No dia 4 de Junho de 2009, Obama defendia no Cairo a necessidade de um novo começo nas relações entre o mundo muçulmano e os EUA. Deste facto resulta uma abordagem realista e pragmática da diplomacia americana, valorizando o consenso e abandonando o unilateralismo das anteriores administrações.

As relações entre a Turquia e Israel, tradicionais aliados dos americanos, saem deterioradas deste incidente. Porém, o processo de emancipação da Turquia, já decorria desde o final da Guerra Fria. O Governo Erdogan tem promovido um gradual afastamento da influência dos militares no processo de decisão ao nível da política externa turca, sem com isso ser afectado o secularismo de Atatürk. Aliás, parte da influência da Turquia na região provém do facto de ser democrática e ocidentalizada. Esse poder de atracção contrasta com a emergência de uma teocracia conservadora na região, o Irão. A adesão da Turquia à União Europeia (UE) parece assim adiada para o próximo século. Só fortes interesses geoestratégicos ao nível energético poderão trazer a fronteira da UE até ao Médio Oriente. A Turquia parece assim estar destinada a ser o fiel da balança, numa região que vai ser marcada pela competição entre Israel e o Irão. 

O Egipto assume-se da mesma forma como um actor relevante no âmbito do bloqueio de Gaza. Apesar da opinião pública egípcia ser gradualmente favorável aos palestinianos, a elite política continua a reforçar a importância estratégica do Tratado de Paz de 1979 com Israel.

Os nexos de causalidade têm sido evidentes, o que acontece em Gaza acaba por ter inevitavelmente repercussões no Egipto, no plano interno e externo. Assim parece ser claro que os egípcios não tencionam voltar a assumir o controlo de Gaza, papel que desempenharam entre 1948 e 1967.

O Caso “Flotilla” não afectou o curso das negociações nas Nações Unidas quanto à questão iraniana. A diplomacia americana tinha já anteriormente alinhado os membros-permanentes do Conselho de Segurança no sentido da imposição de novas sanções à República Islâmica do Irão.

Apesar do Acordo Brasil-Irão-Turquia, as relações entre Ancara e Teerão serão sempre condicionadas por um factor de natureza sociológica. A população muçulmana da Turquia é maioritariamente Sunita e a quase totalidade da população iraniana pratica o Xiismo Duodecimano.

Será improvável que os Guardas da Revolução Iraniana escoltem as embarcações humanitárias em direcção a Gaza, como foi anunciado por Hojjatoleslam Ali Shirazi, assessor de Ayatollah Ali Khamanei, o Líder Supremo. A retórica de confrontação do regime político iraniano não coincide, mais uma vez, com o seu habitual pragmatismo ao nível da política externa.

Apesar da emergência de novas potências no Médio Oriente, os EUA continuam a ter um papel preponderante no que toca ao conflito israelo-palestiniano, e permanecerão como os principais mediadores do processo de paz na região. O presidente americano designou a paz israelo-palestiniana como um interesse estratégico vital para os EUA. Definir quais serão os seus aliados na região na concretização desse objectivo estratégico, parece ser uma tarefa mais complicada. Se Charles Kupchan definiu como os inimigos se podem tornar aliados, a tarefa que se segue será perceber como os amigos se tornam em algo que não é passível de definição, o que Steven A. Cook definiu como “Frenemies”.

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