Faça bem as contas

thumb-membro

Luís Faria

Investigador e Presidente do Contraditório
"É importante tomar decisões e implementá-las porque é a única forma de produzir efeitos na nossa vida ou em alguma coisa"

Publicado a 8 Abril 2010 em Economia e Finanças

Ralph Keeney, especialista em analisar processos de decisão, estudou a relação entre as escolhas pessoais e as mortes nos EUA e concluiu que cerca de 55% dos norte-americanos, entre os 15 e 64 anos, são responsáveis pela sua morte por tomarem decisões erradas. Estes dados diferem substancialmente daqueles de há um século atrás, época em que apenas cerca de 5% das mortes eram causadas por más escolhas.

Um dos principais erros na tomada de decisões é não saber pesar os resultados de diferentes situações. Ralph Keeney defende que geralmente as pessoas preocupam-se em identificar alternativas, em vez de se concentrarem nos seus objectivos e relacionarem possíveis resultados. A nossa saúde e bem-estar são determinados por inúmeros cálculos de custo-benefício, mas a maioria das  pessoas faz mal as contas. Por exemplo, escrever mensagens no telemóvel enquanto se conduz é perigoso, mas muitas vezes não comparamos bem o custo (não escrever a mensagem naquele momento) com o risco (a morte).

Keeney refere que a sociedade já responsabiliza as pessoas por algumas das suas acções. Por exemplo, há empresas que afastam fumadores durante o recrutamento, há alcoólicos que vêem recusados transplantes de fígado e alguns seguros de saúde são mais caros para quem sofre de obesidade. Se as escolhas forem tomadas de entre o melhor conjunto de alternativas disponíveis, quem toma a decisão tem as condições para poder tomar a decisão correcta, mas uma má escolha pode ter consequências desastrosas.

Perguntar, por exemplo, se são mais importantes os custos económicos ou as consequências de uma determinada medida para a saúde pública é fazer uma análise muito redutora do problema da escolha. Uma decisão informada depende do conhecimento do impacte e da gravidade das consequências para a saúde e dos custos económicos a ela associados. De outra forma, estaremos a emitir juízos de valor sobre o que desconhecemos.

É importante tomar decisões e implementá-las porque é a única forma de produzir efeitos na nossa vida ou em alguma coisa. O resto das nossas vidas acontece apenas por circunstâncias que estão fora do nosso controlo, incluindo as decisões de outras pessoas. 

Participe na discussão

O Contraditório confere a todos os utilizadores o direito de acederem, rectificarem e eliminarem os respectivos dados pessoais. Os dados recolhidos destinam-se apenas à identificação do autor da mensagem.


Código de validação

Comentários (4)

  • Luís Faria 17 Abril 2011, 22:16 GMT
    Um ano depois, o mesmo tema. Novos dados que nos permitem tomar decisões e viver, ou morrer, com elas.

    Think before you speak - Distracted driving is the new drunk driving (in The Economist, 16 April 2011)

    "The driver who killed Jennifer Smith’s mother in 2008 by hitting her car at a crossroads was sober and had never received a speeding ticket. But he was talking on his mobile phone. He was so engrossed that when the policeman later asked him what colour the traffic light had been, the driver said he had not even seen one.

    (...) A study by Carnegie Mellon University using brain imaging found that merely listening to somebody speak on the phone led to a 37% decrease in activity in the parietal lobe, where spatial tasks are processed. This suggests that hands-free use of mobile phones cannot help much. Such distractions, according to one study, make drivers more collision-prone than having a blood-alcohol level of .08%, the legal limit in America. It appears to raise the risk of an accident by four times. Texting multiplies the risk by several times again.

    Officially, distraction accounted for 16% of traffic deaths in 2009 (up from 10% in 2005) and for 20% of injuries. The age group at greatest risk is, unsurprisingly, teenagers, though older drivers are not immune."
  • Guilherme Vasconcelos Vilaca 26 Abril 2010, 14:24 GMT

    Caro Luís,

    A tua resposta é um tiro na água para usar linguagem da batalha naval. O problema não está, como assumiste na resposta, no conceito de racionalidade limitada ou perfeita. Ambos assumem que nós agimos sempre após um período de deliberacão com mais ou menos informação.

    O meu comentário pretendia salientar que certas acções não são precedidas de tal cálculo custo/benefício. De facto, se tu ages instintivamente levando as mãos a cara quando uma bola se aproxima, podes chamar a isso um processo de decisão? Podes dizer que equivale a um cálculo quanto aos custos e benefícios entre as opcões i) levar com a bola ou ii) gastar energia ou largar o que tens nas mãos para te protegeres?

    Eu acho que não. De forma semelhante, acredito que em certos momentos e contextos os agentes não escolhem de facto racionalmente = não existe o tal cálculo. Ao invés agem instintivamente. Equacionar ambos processos de agir é ignorar avanços fulcrais na teoria da decisao.

    Por isso mesmo salientei que nos casos em que tendemos a agir instintivamente pode ser mais importante a educação do que a simples mudanca de penalidades. Porque sendo um one shot moment, como referiste, não podemos estar dependentes de um processo de cálculo que NÃO ocorrerá. Isto vem de encontro a pesquisas recentes na área da teoria da decisão e psicologia que demonstram que nos agimos muito de acordo com a seguinte imagem: subimos a escada e deitamo-la fora. Isto é, durante o crescimento enquanto crianças e jovens aprendemos regras que interiorizamos e que depois deixamos de questionar, logo interrompendo o processo decisório. A prioridade passará a ser estas tais rules of thumb que se absorvem.

    Portanto Luís, a questão vai muito além da defesa tradicional dos economistas que os novos modelos incorporam mais informação e racionalidade imperfeita. A questão está no próprio paradigma de escolha que subjaz a economia.

    Ou seja, a tua resposta pressupõe ainda que nós escolhemos sempre. Essa assumption da economia é simplesmente falsa e uma vez mais não tem nada a ver com ter mais ou menos informacão. Vem antes.
     

  • Luís Faria 14 Abril 2010, 15:37 GMT
    Caro Guilherme,

    Racional ou instintivamente, quem pega no telemóvel enquanto conduz está a fazer uma escolha, a tomar uma decisão. Certa ou errada. Pensemos numa pessoa que tem como princípio atender sempre o telemóvel, mesmo enquanto conduz, porque nunca sabe se será aquela chamada que irá mudar a sua vida. Esta pessoa está a fazer uma valorização, mesmo que instintivamente. Mas será que vai atender o telemóvel ao lado de um carro da polícia? Ou será que depois de ter um grave acidente de viação enquanto utilizava o telemóvel vai voltar a fazê-lo?

    Quando não conseguimos antecipar as consequências das nossas acções, as nossas escolhas fazem-se com base em incentivos e num processo de aprendizagem, de tentativa e erro. Desde que tenhamos uma segunda oportunidade.

    As motivações para a utilização do agente representativo assentam, sobretudo, no desejo de definir uma matriz na qual o equilíbrio é único e estável. Concordo que o agente representativo com racionalidade ilimitada, que vive num contexto de concorrência perfeita, rendimentos não crescentes e externalidades inexistentes, é uma simplificação que traz alguns problemas ao modelo canónico da economia tradicional. Estes são erros de formalização dos modelos macroeconómicos de equilíbrio geral, que não podem ser considerados representações ideais de economias descentralizadas porque impõem uma série de conceitos centralizados. Mas outros ramos da ciência económica utilizam representações muito diferentes das utilizadas pela teoria do equilíbrio geral Walrasiano ou pela macroeconomia Keynesiana. Utilizam, por exemplo, modelos que simulam sistemas complexos habitados por agentes heterogéneos, com racionalidade limitada, que interagem de acordo com determinadas regras e estão sujeitos a um processo de aprendizagem.

    Sabemos que o mesmo problema colocado de formas diferentes leva a respostas antagónicas, apesar de o resultado se manter o mesmo; ou que perante a comparação entre determinadas figuras geométricas o nosso cérebro dá-nos muitas vezes uma percepção errada das suas dimensões relativas. É este conceito de racionalidade limitada que determina as escolhas dos agentes, o que não os torna irracionais, nem os desresponsabiliza pelas suas acções. Quer sejam decisores ou economistas.
  • Guilherme Vasconcelos Vilaça 11 Abril 2010, 15:27 GMT
    O que me impressiona nestes estudos baseados num paradigma de escolha racional é a pressuposição que nós agimos sempre baseando-nos num cálculo prévio c/b ou num verdadeiro processo de deliberação.

    Isto é, será que quem manda uma mensagem ao conduzir decide (verdadeiramente) fazê-lo ou por qualquer outra razão fá-lo apenas instintivamente?

    Portanto, apesar de se poder discutir o cálculo errado que nós fazemos dos benefícios/custos de determinada escolha esta análise só se aplica se existir um verdadeiro processo de decisão. Qual a relevância desta observação? Bem, por exemplo se se quiser mudar o comportamento das pessoas em momentos em que estas não escolhem, esta distinção permitirá perceber que uma simples alteração na estrutura de custos-benefícios poderá não mudar o comportamento dos agentes. Exemplo: Aumentar a multa/penalidade para quem conduz e usa o telemóvel. Uma estratégia mais promissora será apostar na educação de hábitos de condução em idade jovem. Ou seja, criar rotinas que se apliquem automaticamente sem necessidade de processos de decisão.

    Insistir no cálculo é errar fundamentalmente na natureza dos processos de decisão humana. Um entre muitos outros exemplos de como a economia não olha para o ser humano tal como ele é mas tal como ele é "construído" pela própria disciplina. Com isto não quero dizer que a Economia nos esteja a enganar. Qualquer disciplina constrói o seu objecto de estudo a partir dos seus axiomas. O que é relevante é perceber como tal construção pode afectar o policy-making.