Bairros de lata e as cidades do futuro

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Luís Faria

Investigador e Presidente do Contraditório
"O crescimento de uma cidade baseia-se nas inovações que dinamizam a economia ou em factores externos como as migrações"

Publicado a 7 Março 2010 em Economia e Finanças

A humanidade ultrapassou uma marca histórica: a maior parte da população mundial vive em cidades.

De acordo com as Nações Unidas (UN), 1000 milhões de pessoas vivem em bairros de lata e este número irá duplicar nos próximos 25 anos. O relatório das UN refere que “As cidades são muito mais eficazes a promover novas formas de gerar rendimentos e torna-se muito mais barato oferecer serviços em áreas urbanas, por isso, alguns especialistas têm sugerido que a única estratégia realista de combate à pobreza passa por trazer o maior número possível de pessoas para as cidades”

Confuso?

As cidades são o principal motor de inovação e criação de riqueza; o local onde vivem empreendedores, artistas, investigadores e financeiros; e, simultaneamente, onde se encontra o maior foco de crime, poluição e doenças (Bettencourt et al, 2007).

Segundo um estudo do Banco Mundial, há milhares de pessoas nos bairros de lata e são sobretudo populações jovens, com ideias novas e sem alguns dos preconceitos que se encontram nas cidades. O estudo apresenta o exemplo de um bairro de lata de Bhopal, na Índia, onde uma em cada cinco famílias consegue encontrar casa fora do bairro e uma das principais justificações para o conseguirem fazer é a sua propensão para poupar de uma forma regular. Uma vez que os melhoramentos nos bairros de lata são insuficientes, a mobilidade destas famílias para outras zonas da cidade torna-se uma estratégia para aumentar o seu bem-estar. Desta forma é-lhes permitido melhorar as condições de habitação, oferecer uma melhor educação às crianças, ter mais segurança e um melhor acesso a redes laborais formais.

De acordo com o relatório do Instituto de Santa Fé, especializado no estudo de sistemas complexos, quando uma cidade cresce, o seu metabolismo social acelera e a produtividade individual aumenta (15% por pessoa quando a cidade duplica) à medida que as pessoas interagem e têm uma ocupação. O crescimento de uma cidade baseia-se nas inovações que dinamizam a economia ou em factores externos como as migrações. O maior desafio que se coloca às cidades é tornar este crescimento sustentável.

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Comentários (1)

  • Isabel Maria Viana Moço Martins Alves 18 Março 2010, 21:56 GMT

    As migrações dos campos para as cidades estão assentes num modelo de desenvolvimento com base na industrialização, que ocorreu no 1º mundo e que foi depois exportado para os países do em vias de desenvolvimento. Estes povos ao abandonarem as áreas de cultivo passaram directamente para as cidades sem qualquer tipo de qualificação engrossando assim as economias paralelas e as actividades de baixa remuneração. Entretanto os campos abandonados foram na grande maioria ocupados por transnacionais que produzem os produtos agrícolas em regime de monocultura desgastando do ponto de vista ambiental os solo.Este modelo de desenvolvimento no Sul
    condena também à fome os povos que deixaram de poder fazer a sua agricultura tradicional e que dependem dum salário para comprar os produtos alimentares.


    Há assim que repensar a nível global uma nova agenda sobre a produção de bens alimentares tendo em conta que a PAC é também um problema para a União Europeia. Enquanto esta nova ordem sobre a produção e preços dos produtos alimentares não for alterada às populações que vão chegando às cidades terá que se fazer uma integração dispersando-os pelo tecido urbano com base em estudos antropológicos. É evidente que terão também que existir políticas públicas ao nível do acesso à saúde da educação e nesta à inovação .